terça-feira, 1 de junho de 2010

Clube Contadores de Histórias


Não tem escolha A ele não valia a pena perguntarem-lhe o que queria ser quando fosse grande. A resposta, quisesse ele ou não quisesse, só podia ser uma:

— Rei.

Tinha de ser. Pois se ele era príncipe, filho único de um senhor rei, que outra coisa, profissão ou destino podia caber nos seus projectos de futuro?Pensando nisto, o príncipe, que não tinha vontade nenhuma de ocupar o trono dos seus antepassados, entristecia.Uma vez, ouvira o jardineiro dos jardins reais queixar-se:

— O meu filho, que eu gostava tanto que fosse jardineiro como eu, diz que não tem vocação para a jardinagem.Se ele dissesse o mesmo (isto é, o equivalente!), o que é que aconteceria?

Encheu-se de coragem e disse.

O rei, que era um homem compreensivo, respondeu-lhe:

— Meu filho, eu, quando tinha a tua idade, queria ser arquitecto, mas o teu avô deixou-‑me esta obrigação, o que havia eu de fazer?

Por sinal que era um rei muito dado a construções. Se queriam vê-lo feliz, mostrassem-‑lhe projectos de obras públicas, hospitais, escolas, novas cidades. O rei ficava encantado, dava opiniões, discutia com os arquitectos e os engenheiros como se fosse um deles.

— Se não tivesses de ser rei, o que é que gostarias de ser, quando fosses crescido? — perguntou o rei ao príncipe.

— Gostava de ser veterinário — respondeu o príncipe.

— Não vai ser fácil. Um rei veterinário não é muito comum. Há casos de reis-soldados, de reis-marinheiros, de reis-músicos, mas de reis-veterinários não tenho ideia. No entanto, vou pensar no assunto.

Era um bom pai e um bom rei. Em segredo, começou a projectar um grande jardim zoológico. Desenhou tudo muito bem desenhado, como se fosse um arquitecto.

Quando tinha a obra toda projectada, estendeu os rolos dos projectos diante dos olhos do filho e disse-lhe:

— Ficam ao teu cuidado, para que tu construas o jardim, quando fores rei.

— Mas o pai podia mandar construir agora — disse o príncipe.

— Quero que fique à tua responsabilidade. Quando eu morrer, deixo-te o reino e estes projectos, para que te ocupes deles.

Assim sucedeu. O príncipe tornou-se rei. Não tinha alternativa. Uma vez coroado, dedicou-se com entusiasmo aos trabalhos de governação. Mas com mais entusiasmo se dedicou a levantar o jardim zoológico, que, uma vez pronto, maravilhou o mundo.Ao jardim deu o nome do senhor rei seu pai, que tinha querido ser arquitecto.


António Torradohttp://www.historiadodia.pt/Adaptação

terça-feira, 18 de maio de 2010

Clube Contadores de Histórias


Ele era muito distraído. Um cabeça-no-ar. Péssimo para fazer recados. Mas, mesmo assim, a mãe dele insistia:

– Ó Pedro, vai ali, se fazes favor, à mercearia do senhor Cosme e traz-me dois quilos de batatas.

O Pedro ia e voltava a correr com uma batata na mão.

– Então as outras? – perguntava a mãe.

– Já vou buscar, mãe – dizia o Pedro.

Nova corrida e nova batata. Trazia-as uma a uma...

– Ó filho, que trabalheira! Metia-las todas num saco e trazias, de uma só vez.

– Boa ideia, mãe. Para a próxima já sei.

O recado seguinte tinha a ver com o porco, que tinha ficado em observação no veterinário, por causa de umas vacinas, e que a mãe não tivera ainda tempo de ir buscar. Mandou o filho.Quando o rapaz regressou sem o bicho, a mãe admirou-se.

– Fui metê-lo num saco e ele não quis – explicou o Pedro.

– Ó filho, trazia-lo para casa com um cordelinho amarrado pelo pé e tocáva-lo para diante com uma varinha.

– Boa ideia, mãe. Para a próxima já sei.

Pouco depois, a mãe mandou-o à feira para comprar um cântaro. Quando o Pedro chegou a casa trazia só a asa do cântaro, presa a um cordel. E ele, muito contente:

– Fiz como a mãe disse.

O que valia ao Pedro cabeça-no-ar é que a mãe tinha muita paciência. Ai dele se não tivesse!




Semana: de 11 a 18 de Maio


Resposta: Malta e Chipre

Participantes: 49

Vencedores: 2

João Pereira - 5ºD
Ruben - 5ºD

terça-feira, 4 de maio de 2010

LEITOR DO TRIMESTRE

Ao longo do 2º período, efectuaram-se inúmeros empréstimos domiciliários, cujos dados estão já disponíveis.

Dos alunos que mais leram, decidimos atribuir prémio aos seguintes:
BEATRIZ CUNHA, N.º 5, 5º A
DIOGO ARAÚJO, N.º 12, 5º D
BÁRBARA MOREIRA, N.º 5, 5º E
Continuação de BOAS LEITURAS!

Solução: Leite e mel
Participantes: 39
Vencedores: 9
5º ano

Turma G
Ana Catarina
Ângela M.
Ângela Cerqueira
Bernardo
Cátia R.
Diana B.
Tatiana

6-ºano

Turma E
Martinho

Turma G
Ricardo L.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Clube Contadores de Histórias


Colares de pérolas


Joanina e Lionídia eram duas jovens que se preparavam para o primeiro baile.
Vestiam vestidos de seda branca com muita goma e roda, todos enfeitados de lacinhos azuis e cor-de-rosa.
Não haverá hoje raparigas que consintam em usar vestidos destes, mas isto passou-se há muito tempo.
Diante do toucador, ajeitaram ao espelho os caracóis e canudos de cabelo, que as faziam parecer bonecas de porcelana. Sentiam-se lindas. E, efectivamente, sinceramente, estavam.
Chegou a altura dos últimos adornos. Brincos, anéis, pulseiras e um diadema no toucado. Até o espelho pestanejou com tanto brilho.
— Falta o colar — lembrou a Lionídia, enquanto procurava, na sua caixinha de guarda-jóias, o ornamento essencial à perfeição do quadro.
Já Joanina tinha tirado do respectivo guarda-jóias e posto com todo o cuidado ao espelho o seu colar de pérolas, sorrindo, feliz, porque era a primeira vez que o punha. Sentia--se uma senhora, uma dama, um modelo para um retrato a óleo.
Lionídia tinha um colar igual. Ou quase.
— O teu colar é de pérolas falsas — disse Lionídia, olhando de esguelha para o colar de Joanina.
— Como é que tu sabes? — indignou-se ela. — Este colar está na nossa família há várias gerações e sempre foi tomado como verdadeiro.
— É falso. Digo e torno a dizer, porque as tuas pérolas não têm a perfeição nem a transparência leitosa, nacarada, aveludada das minhas.
Isto dito por Lionídia era uma afronta para Joanina.
— E se for ao contrário? — ripostou ela. — Está-me a parecer que as tuas pérolas é que são uma perfeita imitação das minhas.
Enervaram-se. Zangaram-se. Descompuseram-se.
Brigaram. Não fosse estarem tão alinhadas para a festa e, quase de certeza, ainda acabariam por se agarrar aos caracóis uma da outra e espatifar os vestidos brancos, engomados e rodados, com lacinhos azuis e cor-de-rosa…
Uma réstia de boa educação e de bom senso conteve-as.
Para decidirem de uma vez para sempre qual tinha razão lembrou-se uma delas.
— Só há uma prova a fazer. O vinagre!
Quem não souber que aprenda que o vinagre desfaz as pérolas naturais, as legítimas, as fabricadas com sossego e demora, dentro da concha paciente das ostras.
Muito exaltadas e avinagradas, foram buscar à cozinha uma tigela de vinagre.
— Queres ver que o teu colar pelintra não se desfaz — disse a Joanina à Lionídia.
— A porcaria do teu colar é que não vai desfazer-se — disse Lionídia à Joanina.
O resto está-se mesmo a ver. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares. Só sobraram para amostra fios e fechos, tão valiosos como duas espinhas de peixe.
E as duas jovens, depois de chorarem muitas lágrimas, abraçadas uma à outra, lá tiveram de ir para o baile sem os seus preciosos colares.
Pobres das ostras que tanto trabalharam a acrescentar, a arredondar e a aprimorar as suas maravilhosas pérolas, para que assim se perdesse o labor de tantos anos num bochecho de vinagre. Dá que pensar.



Adaptação
António Torrado
www.historiadodia.pt